Segunda Primavera
Se cada folha
For uma flor.»
Albert Camus
Cada alma vê o mundo de maneira diferente. A vida, quando vivida, torna-se para todos um bailado de verdades e mentiras, factos e sonhos. E é neste mar de antíteses que todo o ser respira, avistando inevitavelmente um horizonte e sendo ele próprio o horizonte de si mesmo.
«Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.»
William Shakespeare
“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós , nem nós o entendemos a ele .”
Saramago escreveu outro livro. O seu título é “Caim”, e Caim é um dos protagonistas principais. Outro é Deus, outro ainda é a humanidade nas suas diferentes expressões. Neste livro, tal como nos anteriores, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, por exemplo, o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos - ou talvez fosse melhor dizer para exigir a outros - uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus.
Caim não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra. Pois bem, com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia.
«Elevando-nos em afectos mais ardentes por essa felicidade, divagámos gradualmente por todas as coisas corporais até ao próprio céu, donde o Sol, a Lua e as estrelas iluminam a terra. Subíamos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as vossas obras. Chegámos às nossas almas e passamos por elas para atingir essa região de inesgotável abundância, (…) a própria Sabedoria. (…) Antes, não há nela ter sido, nem haver de ser, pois simplesmente «é», por ser eterna.»
Santo Agostinho, in Confissões.
Fernando Pessoa
Três ensaios de Schopenhauer, resumidos por Irvin D. Yalom na sua obra “De Olhos Fixos no Sol”, que enfatizam a ideia de que “apenas o que uma pessoa é conta”:
1. «O que temos. Bens materiais são uma ilusão. Shopenhauer argumenta, com elegância, que a acumulação de riqueza e de bens materiais é infinita e insatisfatória; quanto mais possuímos, mais desejamos. A riqueza é como a água do mar: quanto mais bebemos, mais sede sentimos. No final, não somos nós que temos os bens, mas os bens que nos têm a nós.
2. O que representamos aos olhos dos outros. A fama é tão evanescente como os bens materiais. Shopenhauer escreve: “Metade das nossas preocupações e ansiedade nasce do valor que damos às opiniões dos outros… Temos de ser capazes de extrair esse espinho da nossa pele.” Tão poderoso é o desejo de causar uma boa impressão que alguns condenados à morte já foram para a cadeira eléctrica mais preocupados com a forma como vão vestidos, e as últimas palavras que vão proferir, do que com qualquer outra coisa. A opinião dos outros não passa de uma ilusão, já que se pode alterar a qualquer momento. As opiniões são voláteis e tornam-nos escravos do que outros pensam ou, pior, do que achamos que pensam – porque nunca poderemos verdadeiramente saber o que lhes vai na cabeça.
3. O que somos. Somente o que somos é fundamental. Uma consciência em ordem, diz Shopenhauer, vale muito mais do que uma boa imagem. O nosso objectivo primeiro deveria ser a saúde e a riqueza intelectual, que nos conduz a um manancial sem fim de ideias criativas, a uma vida independente e moral. A equanimidade interior nasce do facto de sabermos que não são as coisas em si que nos perturbam, mas a interpretação que lhes damos.»