quarta-feira, 24 de março de 2010

«Elevando-nos em afectos mais ardentes...»

«Elevando-nos em afectos mais ardentes por essa felicidade, divagámos gradualmente por todas as coisas corporais até ao próprio céu, donde o Sol, a Lua e as estrelas iluminam a terra. Subíamos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as vossas obras. Chegámos às nossas almas e passamos por elas para atingir essa região de inesgotável abundância, (…) a própria Sabedoria. (…) Antes, não há nela ter sido, nem haver de ser, pois simplesmente «é», por ser eterna.»


Santo Agostinho, in Confissões.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ennio Morricone in Venice


Comprei, recentemente, uma edição de luxo de Ennio Morricone intitulada Ennio Morricone in Venice - Live at Piazza San Marco. O pack traz o dvd do concerto na Praça de S. Marcos, em 2008, dois cd's e um book sobre as músicas.
Juntamente com a orquestra sinfónica de Roma (que é, no mínimo, espectacular!), Morricone oferece aos seus fãs e a todos os bons apreciadores de música clássica um concerto memorável.
Ao assistir ao evento pelo pequeno ecrã, senti arrepios do início ao fim.
Aconselho vivamente a compra deste pack (podem adquiri-lo em qualquer Fnac do país por 29,90 euros). Além da maravilhosa comunhão entre maestro e orquestra e, claro, da singularidade das músicas do compositor italiano, o dvd mostra belíssimas imagens de Veneza, bem como algumas frases inspiradoras.
Ennio Morricone nasceu em Roma, em 1928 e, ao longa da sua vida, já foi responsável pela composição e arranjo de mais de 500 filmes e programas de televisão.
Das suas trilhas sonoras mais conhecidas, destaco Era uma vez no Oeste (1968), Era uma vez na América (1984), A Missão (1986), Os Intocáveis (1987), Cinema Paraíso (1988) e Lolita (1997).
Ennio Morricone venceu cinco prémios BAFTA entre 1979 e 1992.
Foi também nomeado pela Academia de Hollywood para cinco Óscares de "Melhor Banda Sonora Original" entre 1979 e 2001.
Em 2007, Morricone recebeu pelas mãos do actor e realizador Clint Eastwood um Óscar honorário "pelas suas magníficas e multifacetadas contribuições musicais ao cinema".

Se quiserem saber mais sobre este meu ídolo, aqui fica o endereço na Internet:

http://www.enniomorricone.com/

Deixo também alguns links com partes de alguns concertos, um deles com a presença da grande figura da música portuguesa (com quem Morricone gravou um disco - Focus -, em 2003), Dulce Pontes.

http://www.youtube.com/watch?v=XvBT9sqXnew
http://www.youtube.com/watch?v=1FzVWlOKeLs
http://www.youtube.com/watch?v=ZNGe7iK1O-4
http://www.youtube.com/watch?v=D1duY7YR8UM

Caros leitores... deliciem-se!


Sara Gonçalves

sábado, 13 de março de 2010

"O mundo não é feito de coisas, mas sim de factos"

O sol estava alto, quente e aconchegante.

Na mais bela cidade, havia de tudo um pouco naquela manhã de Sábado: miúdos a brincar, pais a namorar, idosos a conversar na “Brasileira”, escuteiros a vender baralhos de cartas para o dia do pai, comerciantes com discursos retóricos. No meio de todo aquele cenário, foi o essencial, invisível aos olhos, aquilo que me despertou mais a atenção: a alegria daquela gente perante uns simples raios de sol.

Todos nós pensamos que são as “coisas” que formam o mundo. Aqui está o erro da Humanidade. Como diria o filósofo Wittgenstein, "o mundo não é feitos de coisas, mas sim de factos". Se um indivíduo comprar um carro e atropelar alguém, foi o seu acto que fez mudar a vida das pessoas envolvidas e não o objecto. Os bens materiais são o que de menor há no nosso planeta, ainda que muitos, ao criá-los, tenham alcançado o apogeu da sua carreira.

Cada vez mais se fazem filmes e livros sobre o fim do mundo, nomeadamente sobre o dia 21 de Dezembro de 2012 que, segundo consta no calendário dos Maias (que previram e acertaram na chegada do homem branco, Hernan Corteza, em 1519, por exemplo) porá termo ao planeta Terra tal como o conhecemos hoje. Se tal acontecer, todas as coisas que fomos adquirindo ao longo de uma vida se tornam supérfluas, pois desaparecerão da nossa vista num ápice.

Pergunto: Se sobrevivêssemos a uma catástrofe, o que restaria?

Respondo: Recordações.

Acredito que a memória é o bem mais precioso do Homem, pois é ela que preserva os factos que constroem o mundo. Não são os escritos, os documentários, não! É na nossa cabeça que está tudo aquilo que fomos, somos e tudo aquilo que, um dia, queremos vir a ser.

Se aliarmos a força da mente às sensações, podemos dar a volta ao mundo em 80 dias, tal como nos contou Júlio Verne. Porém, o Homem já não quer dar a volta ao mundo. O Homem quer passar férias na Lua e tentar provar que há vida em Marte para depois se mudar para lá (seria mais fino).

O mesmo animal que passou por guerras mundiais sangrentas, que foi prisioneiro de campos de concentração, que foi escravo de gulags, que chorou e chora com perdas irremediáveis, só olha para as “coisas” e não para uma História que deveria servir de estímulo para remediar males passados e evitar tragédias futuras.

Destruímos cada vez mais o nosso planeta e, um dia, já não haverá raios de sol para alegrar o nosso dia, apenas uma enorme escuridão, a mesma que, neste momento, nos impede de ver o que está diante dos nossos olhos.

Vi a alegria das pessoas que passavam nas ruas com uns simples raios de sol. Mas será que elas sabiam que era o sol o motivo da sua alegria?

O sol estava alto, quente e aconchegante. No entanto, a resposta preferiu vir de encontro à tristeza que vive no meu coração.

Sara Gonçalves,

Braga, 13 de Março de 2010, 20h09m.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A maior tristeza de todas

A maior tristeza de todas é não ter tempo para saborear o gosto do mundo.

Sara Gonçalves

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Quando Nietzsche Chorou", o filme

Irvin D. Yalom

Quando fiz 19 anos, a minha comadre ofereceu-me um livro intitulado Quando Nietzsche chorou. Disse-me que queria presentear-me com algo relacionado com a Filosofia, mas um pouco mais “leve”, em género de romance.

Lembro-me de ter devorado o referido livro no espaço de pouco tempo e de o ter achado tudo menos “leve”. A obra culmina com a libertação de Nietzsche. Ao conseguir compartilhar a sua solidão com outro ser humano, o filósofo consegue finalmente chorar.

Nunca tinha ouvido falar no nome deste autor. No entanto, com a sua escrita e história hipnotizantes, Irvin D. Yalom passou, desde então, a ser uma referência no meu gosto literário.

Yalom, nascido a 13 de Junho de 1931 em Washington DC, Estados Unidos, é filho de imigrantes russos. Formou-se em psiquiatria na Universidade de Stanford e nesse mesmo lugar vive há já 47 anos.

Tornou-se conhecido quando a sua obra Love's Executioner and Others Tales of Psychotherapy, publicada em 1989, alcançou a lista de livros mais vendidos nos Estados Unidos. Na mesma linha, seguiu-se Momma and the Meaning of Life (1999). O seu primeiro romance foi o já citado Quando Nietzsche Chorou, publicado em 1992.

De Olhos Fixos no Sol foi o segundo livro que li de Irvin D. Yalom, uma viagem proporcionada pelo testemunho de pacientes anónimos que nos dão a conhecer a sua experiência com a morte.

Mais recentemente, li A Cura de Schopenhauer. Posso dizer que esta última obra me marcou de uma forma diferente. Mais avassaladora.

A Cura de Schopenhauer é a história de Julius, um terapeuta de sucesso que, perante a iminência da morte, se vê obrigado a fazer um balanço de toda a sua vida. Philip Slate foi um ex-paciente a partir do qual Julius recorda o grande falhanço da sua carreira.
Na tentativa de fazer as pazes com o seu passado, Julius contacta-o para fechar o último capítulo deixado em aberto. Mas Philip é agora um homem diferente e propõe uma troca. Simultaneamente o autor tece a teia da história verídica de Arthur Schopenhauer e envolve-a na narrativa, provocando uma leitura compulsiva e oferecendo uma lição sobre a influência do filósofo alemão no pensamento contemporâneo.
A narrativa de A cura de Schopenhauer move-se em várias direcções, mas todas elas convergem num todo. Uma maravilhosa aventura emocional e intelectual, de deslumbrante intensidade.

Um misto de Psicologia, Psiquiatria, Filosofia, drama e romance, que nos faz voar além do imaginário.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

"Precious"



Esta é uma história de luta, coragem e determinação baseada na vida de Clareece "Precious" Jones.
Um filme de Lee Daniels, com Gabourey 'Gabby' Sidibe, Paula Patton, Mariah Carey, Mo'Nique e Lenny Kravitz, nomeado para seis categorias de Óscares da Academia de Hollywood.
Estreia amanhã, dia 11 de Fevereiro de 2010.

"Em primeiro lugar, o homem nunca é feliz..."

Em primeiro lugar, o homem nunca é feliz, passa a vida inteira a lutar por algo que crê que o vai fazer feliz. Não consegue e, quando o consegue, fica desapontado: ele é um náufrago e chega ao porto de destino sem mastros nem cordame. Já não interessa se foi feliz ou infeliz, pois a vida foi sempre apenas o presente, que estava sempre a desaparecer e agora terminou.

Schopenhauer

"Se te interessas muito por Filosofia..."

Se te interessas muito por Filosofia, prepara-te para ser motivo de escárnio de todos. Se persistires no teu interesse, sabe que essas mesmas pessoas te irão admirar depois. (...) E que, se por acaso deres atenção a factos exteriores, para agradar a quem quer que seja, podes ter a certeza que irás arruinar o teu estilo de vida.

Epícteto

"A Filosofia é uma estrada isolada..."

A Filosofia é uma estrada isolada numa grande montanha (...) e quanto mais subimos, mais isolados ficamos. Quem a percorre não a deve temer, mas deixar tudo para trás e abrir caminho, confiante, na neve do Inverno. (...) em breve vê o mundo lá em baixo, as suas praias e pântanos desaparecem de vista, os seus pontos desiguais aplanam-se, os seus sons estridentes já não lhe chegam aos ouvidos. E a sua redondeza surge ao caminhante, que recebe sempre o ar fresco e puro da montanha e desfruta do sol quando tudo, lá em baixo, está mergulhado na escuridão da noite.

Schopenhauer

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Sobre a "Teoria das Ideias" de Platão


A Teoria das Ideias advém dos pressupostos teóricos detectados na questão fundamental dos diálogos platónicos – “O que é X?”. O simples facto de perguntarmos o que é um determinado x já é algo que nos transcende. A realidade não se reduz, portanto, àquilo que dela nos aparece. Platão acentua bem esta última declaração numa passagem da República, ao afirmar que “tudo no sensível é e não é aquilo que dizemos [ou vemos] ser”.

Para o filósofo há dois planos fundamentais: o plano do transcendente (ou inteligível) e o plano da imanência. O primeiro, como o nome indica, transcende a esfera da nossa experiência e pressupõe uma “leitura interior”. Nele, existe o próprio x encarado em si e por si mesmo. O segundo plano assenta na esfera da nossa experiência mais imediata sendo, claro está, o plano do sensível ou visível, onde não temos uma coisa x, mas sim várias coisas x.

Platão, com a sua teoria, pretende mostrar que as coisas sensíveis são apenas sombras ou, de outra forma, imagens imperfeitas derivadas das ideias. Para o mestre de Aristóteles, as ideias são formas, modelos perfeitos, arquétipos, eternos e imutáveis, que constituem o tal mundo transcendente. Os particulares existentes no mundo nascem e morrem; as ideias permanecem.

Suponhamos que estamos perante várias coisas belas: um livro, um quadro e uma flor. Todas elas diferem umas das outras de várias e óbvias maneiras mas, se formos excluindo todas as características das quais não partilham, chagamos ao que têm em comum. Neste caso, todas as coisas citadas são belas. A beleza é, aqui, a ideia da qual este conjunto de particulares apresentado participa. Ela tem de existir além de todas as coisas sensíveis que existem, pois nenhum dos particulares é a beleza em si.

Tudo o que nos chega da experiência sensível é apenas o reflexo efémero da ideia. Para Platão, só através da reflexão filosófica, ou seja, de ler o mundo com os olhos da inteligência, podemos alcançar o verdadeiro conhecimento: o conhecimento das ideias perfeitas.



Sara Gonçalves

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ensinaste-me que o céu é o limite

Ensinaste-me que o céu é o limite.
Que para o atingir, bastava lutar
E não permitir que qualquer sentimento triste
Nos impedisse de sonhar.

Ensinaste-me a vencer batalhas
E a aprender com as derrotas.
Num mundo cruel, cheio de armadilhas,
Mostraste-me como enfrentar as horas,

As horas que correm no relógio da vida
E que agora me ferem com tal celeridade.
Tantas, tantas saudades da partilha escondida
Que outrora me enchia de felicidade!

Ensinaste-me tudo o que podia aprender
Talvez até mais do que possas imaginar!
Só não me disseste que nunca me irias oferecer
A tua mão, na escuridão deste lugar.

Assim como eu me esqueci de te contar
Que o meu limite não é o céu estrelado,
Mas alguém que, com um simples olhar,
Me fez respirar o mundo inteiro: Tu.


Sara Gonçalves,
Torres Vedras, 8 de Fevereiro de 2010.