sábado, 16 de outubro de 2010

Andar de mãos dadas com o sonho

Andar de mãos dadas com o sonho

Só me fez abraçar a desilusão.

É perigoso desejar,

Mas ainda é mais perigoso desejar

O que nunca se terá.


Perdi-me naquela maré

Onde outrora embarquei

Convicta de que chegaria

A um lugar que agora sei que é pura quimera.

Porque só vive aqui. No pensamento.


Construi esse sítio de que falo

Com alicerces frágeis e disformes,

Em momentos que hoje não sei distinguir

Se eram de puro êxtase,

Se eram de puro desespero.


Conformei-me.

Para quê sofrer?

Contento-me com o meu nada.

Este nada quedo e silente.

Um nada que, ainda que seja nada, é real.


Sara Gonçalves

Braga, 16 de Outubro de 2010.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Madame Bovary

Ontem, tive a minha primeira aula de Literatura e Cinema. Nela aprendi que uma obra de arte é mais inteligente do que nós. Tanto assim é que, embalados pelos efeitos visuais e pela banda sonora de um filme, esquecemo-nos que até o seu nome tem um carácter simbólico pronto a ser descortinado. Usemos o exemplo de Madame Bovary, um romance escrito por Gustave Flaubert que resultou num escândalo ao ser publicado, em 1857, e que, mais tarde, deu origem ao filme com o mesmo título. Este representa o que há de mais íntimo na mulher francesa do século XIX. E o mais incrível é que, concentrando-me no filme, posso agora afirmar que nem é preciso assistir à obra para o saber.
A psicanálise afirma que a maioria das pessoas só tem em conta o referente, "a coisa em si", e o significado, aquilo que "a coisa" significa para nós, mas nunca o significante. Este último diz respeito ao suporte material, ao som. Vejamos então o que sucede quando atendemos ao significante de "Bovary": "bo" lê-se "beau" que é a palavra francesa para bela; "vary" é "varia". Portanto, Madame Bovary é bela e instável, tal como todas as mulheres da sua época. Mas há mais: o seu primeiro nome é "Emma", ou seja, "ela amou". "A mulher instável que amou".
Estou rendida. Alguma vez tinham pensado nisto?

Sara Gonçalves

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O "Filme do Desassossego" que me desassossegou

Vou falar-vos sobre O Filme do Desassossego que me desassossegou. Vi-o no Domingo, no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, um auditório com uma plateia completamente esgotada e a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa António Costa.


Luzes apagadas. Silêncio na sala. E… acção!

Os membros da orquestra afinam os seus instrumentos. O barulho das cordas desalinhadas e dos sopros descoordenados provoca em mim uma enorme desarmonia interior. Antes mesmo de tentar perceber aquele prólogo, aparecem as letras d-e-s-a-s-s-o-s-s-e-g-o. «Desassossego». Sim, foi isso mesmo que senti, naquele momento. Um enorme desassossego.

Aparece Fernando Pessoa. O nosso melhor poeta de todos os tempos, aquele ser único e inatingível que começa por dizer:

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.”

Na estalagem, também está Bernardo Soares, de rosto branco e perna aleijada. A sua fisionomia contrasta com as cenas que se seguem: imagens de Lisboa, uma Lisboa de hoje que poderia perfeitamente ser a dos anos 30. Que bela, a nossa capital! Talvez por isso Soares não se canse de gritar que Lisboa é o seu lar!

Como espelho da sociedade alfacinha serve um restaurante, um quarto com um homem e uma mulher nus e de costas voltadas um para o outro, uma festa ostensivamente rica, decadente. Mas serve mais: O fado! Aquele doce fado que uma mulher de família interpreta num banco de uma praça enquanto a sua filha lhe lê a tristeza lábios: “Toca-me tal como sou, tal como sou… Ou tudo ou nada! Ou tudo ou nada!”.

As personagens que rodeiam Bernardo Soares são «figuras do mosaico do mundo», citando António Rodrigues. Todas elas são idênticas às pessoas que fazem parte do nosso dia-a-dia, seja na rua, no trabalho ou noutro sítio qualquer, e que por vezes nos passam despercebidas.

"São as pessoas que habitualmente me cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo."

Soares, a meio da obra, descobre-lhes algo em comum. Algo simples, que até eu mesma já tinha pensado, mas que nunca passei para palavras, nem o poderia ter feito. Pelo menos, não desta forma: “O sonho é a ilusão de quem não pode ter ilusões. O que há de mais raro nos sonhos é que todos os têm”. Que delícia!

Esta foi uma das passagens que mais me marcou. Porém, ainda eu me encontrava embalada com tamanha clareza e perfeição da construção do discurso e já Bernardo Soares dizia que “para todos nós descerá a noite e chegará a diligência.”

A morte está, sem dúvida, presente ao longo de todo o filme. Além de assistirmos ao funeral de uma criança, quase no final aparece uma cena de ópera sobre Luís de Baviera, interpretada por Angélica Neto e Elsa Corteza. “A sombra te aclama, Imperador!” Tal como aclamará a todos nós. Soares quer que estejamos cientes disso. Porém, até mesmo ele tem momentos de alguma paz. Como quando surge aquela luz… Uma luz quente que ilumina o poeta de todas as vezes que ele respira o Tejo e diz: “O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia. As flautas dos pastores impossíveis não são mais suaves que o não haver aqui flautas e isso lembrar-mas.”

Mas o desassossego não desaparece. "Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter." E não é que no fim também eu passei a não desejá-lo? Este não é um filme que se possa ver enquanto estamos sossegados. Podemos até estar sentados numa bela poltrona. Porém, a nossa mente viaja a mais de duzentos quilómetros, não por hora nem por minuto, mas por segundo, enquanto escutamos as palavras de todos aqueles que encarnaram as personagens desta obra-prima de João Botelho.

Tudo acaba, por fim, tal como começou: na estalagem, com Fernando Pessoa a olhar o infinito e, na mesa ao lado, ninguém. Assistimos ainda à recusa do manuscrito do Livro do Desassossego que o dono do estabelecimento corre a devolver a Pessoa quando este se vai embora. Afinal de contas, o livro não é dele. É de outro. Um outro que só existe na sua mente e que, um dia, disse:

“Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”

Que importa que assim seja se enquanto cá estamos temos um mundo de literatura que nos permite viajar, amar e conhecer o que não se conhece? Uma literatura que, segundo Soares, “é uma arte casada com o pensamento”.

Sara Gonçalves

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"O bem fá-lo gota a gota; o mal fá-lo de uma só vez!"

Como é do conhecimento de todos, foram apresentadas antes de ontem as novas medidas de austeridade pelo Governo português. Quando pensávamos que as coisas não podiam piorar mais para as nossas carteiras, elas pioram.

O engenheiro José Sócrates tem vindo a faltar às promessas que fez a Portugal quando alcançou o cargo de primeiro-ministro. Nós fomos perdoando, perdoando, perdoando. E ele foi abusando, abusando, abusando. A fortuna é como um rio. Quando o caudal aumenta, tende a sair das margens.

E agora, tomem lá mais esta, portugueses! Aumento do IVA para 23%, corte nos ordenados da função pública, corte nos abonos de família, etc, etc, etc. A história repete-se e nós, como sempre, vamos perder poder de compra.

Já dizia Maquiavel: “O bem fá-lo gota a gota; o mal fá-lo de uma só vez!”. O primeiro-ministro devia aprender a lição com quem sabe.

Concordo que na situação económica em que o país se encontra fosse necessário tomar medidas. No entanto, pergunto-me: será que aquela cambada que faz da Assembleia da República um teatro irá sofrer as consequências da mesma forma que nós? Parece-me que não. Os seus carros topo de gama (pagos com o nosso dinheiro) vão continuar, por certo, a percorrer as nossas estradas.

Estamos a caminhar para um beco sem saída. Thomas Hobbes, o mais conceituado filósofo-político de todos os tempos, dizia que os homens, durante o tempo que vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, encontram-se em guerra. Uma guerra que é de «todos os homens contra todos os homens». E em que situação se encontra um país que, além de uma enorme crise económica, tem uma crise política a querer estourar?

Temos de levar todos os dias com a telenovela mexicana “Sócrates-Passos Coelho”, uma telenovela de fraca qualidade que, sinceramente, já enjoa. O primeiro representa mal, mas tem uma grande oratória e poder de persuasão. Daí continuarmos a levar com ele. O segundo representa bem e, para ajudar, tem aquele charme invulgar que as mulheres portuguesas apreciam. A ambos falta honestidade, mas tal não é de estranhar. A honestidade é inimiga do poder.

Assim, vivemos num país que ora é PS, ora é PSD, ora é PSD, ora é PS. Partidos que detém o poder, mas que, ao longo dos tempos, têm vindo a perder a sua identidade. Do “centrão” é tudo igual. E mais não digo.


Sara Gonçalves