terça-feira, 1 de novembro de 2011

O primeiro de Novembro daquele tempo longínquo

Lembro-me do primeiro de Novembro

Daquele tempo longínquo

Do qual já só restam recordações.

Assemelho-o àquela infância sorridente

Que partiu sem se despedir,

Deixando ficar apenas rastos

Aos quais hoje presto devoção,

Para tentar reaver alguma da alegria

Que percorria aquele meu corpo de criança.


Jovialmente, lá ia eu,

Embalada pelo tocar dos sinos da igreja,

No primeiro de Novembro,

De porta-em-porta,

Pedir doces, broas e frutos secos,

Com sorte moedas! - não de ouro, mas de chocolate -

A quem quase nada tinha

E que, mesmo sem nada ter, não se importava de dar.

Os velhos da aldeia acatavam todos os pedidos

Porque sabiam que, em troca,

Receberiam olhares cheios de vida,

De esperança, de futuro.


Naquele fim de tarde

Do primeiro de Novembro,

De rosto cansado e rosado,

Comia a oferenda de quem enriquecera

Com o meu sorriso de agradecimento

E, à noite, todos adormecíamos satisfeitos.

Por maior que fosse o frio -

Presságio do Inverno que se avizinhava -

Os nossos corações permaneciam

Quentes, aconchegados com o carinho

Que havia preenchido todo aquele dia.


Hoje, a minha aldeia está morta.

Mesmo assim, não posso deixar de recordar

Aquele primeiro de Novembro.



Sara Gonçalves

Braga, 1 de Novembro de 2011

A Ilha de Calipso ou a Fase Fálica do Édipo



A Perfeição, de Eça de Queirós, conta a história de Ulisses que «jazia numa ilha mole, eternamente preso, sem amor, pelo amor de uma deusa», há já oito anos. Falamos da ilha de Calipso que, na teoria freudiana do Édipo, corresponde à fase fálica da criança, orientada pelo imaginário. Nesta etapa, há uma tendência incestuosa da libido (a libido infantil investe em objectos exteriores, o primeiro dos quais a mãe), um interesse pela coisa sexual (que se traduz na manipulação onanista) e é postulada a universalidade do falo (para as crianças dos dois sexos só existe um órgão sexual: o masculino). Na fase fálica, as crianças vivem, se quisermos, uma excitação constante. Podemos correlacionar esta excitação que não cessa com o paraíso onde Ulisses habita, no conto. A ilha é a ontologia plena, uma conceção de ser a que nada falta, o lugar onde o ser goza simplesmente de ser.
Será possível viver eternamente num lugar tão perfeito?
Ulisses
demonstra que não, afirmando ter saudades do esforço, do trabalho, da luta, até do sofrimento característicos de toda a vida humana. Ele anseia pela libertação. É, pois, devido a essa vontade do herói que Mercúrio desce à ilha, enviado por Júpiter («o regulador da ordem») e ordena à deusa que solte Ulisses dos seus braços, permitindo-o, dessa forma, regressar a Ítaca e à sua amada Penélope. Do céu surgiu a libertação da fase fálica. Esta emancipação equivale à castração freudiana, absolutamente necessária no processo edipiano, uma vez que é ela que permite à criança conservar o seu órgão sexual (a criança renúncia ao órgão, para, evitando a castração, reavê-lo, mais tarde – é o aufhebung de Hegel, o ser que se nega para depois voltar a ser). De outra maneira, a castração corresponde a uma operação estrutural que anula a universalidade imaginária do falo e determina o reconhecimento da diferença sexual. No conto, Ulisses necessita da renúncia ao paraíso para se conseguir reencontrar: «Porque, na verdade, oh deusa muito ilustre, o meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal.» Desta forma, chega ao fim o mundo de fantasia onde tudo é possível, onde tudo goza, onde a satisfação é total.
Para Ulisses, o mal reside na perfeição. «Oh deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!» A personagem chega mesmo a afirmar que morre de saudades da morte, porque ali, naquela ilha, com Calipso, nada perece, tudo é perene. Até as flores! – «Há lírios que odeio, com um ódio amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna!».
A história de Eça de Queirós termina com o momento em que o herói solta a vela da jangada que construiu depois de decretada a sua libertação. «Fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias - para a delícia das coisas imperfeitas!» Foi assim que Ulisses saiu do paraíso para se introduzir na ordem humana, isto é, na diferença sexual, onde já não encontramos seres que gozam simplesmente de ser, mas sim sujeitos que conseguem encontrar a felicidade na imperfeição.

Sara Gonçalves

Nota: a imagem foi retirada do endereço http://deedellaterra.blogspot.com/2008/12/odissia-oggia.html.

sábado, 15 de outubro de 2011

"O Livro que me Caiu aos Pés"


Saí daquela sala frustrada. No espaço de uma semana, fui duas vezes ao cinema para tentar findar este desassossego interior que não é mais que a consequência da falta de espanto que a sétima arte me tem provocado nos últimos tempos. Duas idas, duas tentativas falhadas. Primeiro, foi Sangue do Meu Sangue, asneirento, exageradamente doloroso e com uma penúltima cena completamente desnecessária, diria mesmo repugnante; depois, O Contágio, uma história banal que abafou por completo o talento de grandes atores como Kate Winslet, Matt Damon, Jude Law, entre outros.

«O cinema não me anda, definitivamente, a consolar», pensei. Olhei para o relógio. Faltavam cinco minutos para a meia-noite, isto é, para as lojas do centro comercial fecharem. Decidi entrar na Bertrand, mesmo sabendo que teria de dar uma vista de olhos rápida pelas estantes (detesto fazê-lo, mas houve, naquele momento, uma «força» qualquer que me puxou para dentro da livraria). Passei rapidamente pelas novidades, quedei-me uns três minutos em frente aos títulos de Filosofia e, por fim, quando me dirigia para a literatura traduzida, um livro caiu-me aos pés. Caiu. Assim. Não toquei, não mexi, não abanei. O livro simplesmente caiu. Peguei no dito, mirei a contracapa e qual não é o meu espanto quando, ao virá-lo, vejo o seguinte nome: «Irvin D. Yalom».

Para quem não conhece, Yalom é um escritor americano, formado em Psiquiatria (já escrevi um artigo sobre ele neste meu espaço: http://horizontedoser.blogspot.com/2010/02/irvin-d-yalom.html), autor dos best sellers Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer. É também um dos meus grandes ídolos, um homem dotado de uma escrita terapêutica. Confesso que já andava a estranhar a sua ausência. Vergonhosamente, não sabia que estava para sair uma nova obra. Se soubesse, já a teria na minha prateleira há uns dias.

Curioso: quem diria que não iria ser eu a ir ter com um livro desejado (ainda que na altura não soubesse da existência do objeto desejado), mas o livro a vir ter comigo? Os caríssimos leitores podem dizer-me que foi apenas uma coincidência. Corroboro. É claro que foi! Contudo, também considero as coincidências merecedoras de atenção, principalmente as que são causadoras de um sorriso genuíno como o que há pouco se desenhou no meu rosto.

Moral da história: não encontrei consolo no cinema; vou, porém, encontra-lo - e afirmo isto quase apoditicamente - na literatura, em particular neste novo romance de Yalom intitulado A Psicologia do Amor, que me caiu aos pés numa noite que já nada de bom parecia prometer.


Sara Gonçalves

Torres Vedras, 14 de Outubro de 2011



domingo, 9 de outubro de 2011

"A Rosa e a Esperança" vence 1º prémio

Caros leitores,
É com grande contentamento que informo que o meu poema A Rosa e a Esperança foi galardoado com o 1º prémio do concurso de poesia sobre o tema "A Vida e a Morte", no âmbito das Comemorações dos 20 anos do Novo Hospital de Guimarães.

Dedico-o inteiramente à minha avó Conceição, a estrela que me guia todos os dias. Foi a pensar nela que escrevi os versos que se seguem.


A Rosa e a Esperança


Costumo olhar as rosas

Com o espanto inocente

De quem se admira

Com o simples semblante da natureza.

Em tempos, não olhava a sua beleza,

Só o seu murchar,

Esse murchar moroso; inquietante;

Fatal.


Mas, de que me adiantava

Encarar as rosas como um simples adorno,

Um nada disfarçado de cor?

A efemeridade de cada rosa

É a minha própria efemeridade.

A utopia de uma eternidade inatingível

Tornou-se na plenitude do agora,

Naquele momento -

Longo e súbito momento -

Em que ao quadro multicolor da existência

Se sobrepôs a escuridão.


Depois da escuridão,

O despertar.

O despertar de um sono dogmático

Em que até então havia estado mergulhada.

Cresceu em mim a vontade de tomar

Todos os elementos mundanos

Como seres supremos,

Dotados de uma tal força singular

Que é agora minha condiscípula

Nas horas de maior debilidade.


O cheiro das rosas é doce,

A sua quietude perfeita.

Contemplo tudo o mais que há de belo,

Ainda que a beleza não passe

Desse fio ténue que tem por baixo

Um abismo colossal.

Que me importa?

Não há maior prazer

Que o prazer do Mundo em si.


Aprendamos a viver,

Pois essa é a maior das aprendizagens.

Retiremos partido de tudo

Quanto nos aconteça.

Quando a noite chegar

E o frio se fizer sentir,

Lembremo-nos da beleza da rosa

E de todas as outras flores do jardim

Que ainda queremos contemplar,

Cheirar, acariciar, amar.


Porque a morte - esse fim que adormece

Todos os dias a nosso lado -

Não nos permite apenas

Falar da vida.

A morte dá-nos a força

Necessária para vivê-la.

Assim se unem os contrários,

Morte e vida, vida e morte,

Neste Mundo tão cheio de antíteses

Que não são mais do que espelhos de um

Todo.

A esse Todo chamo

Esperança.


Sara Gonçalves,
21 de Junho de 2011 - Braga.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Lembrar Marx na "British Library"

Reading Room, British Library, gravado em madeira por Richardson & Cox
a partir do desenho de Henry Walter Herrick


Descobri esta imagem num blogue intitulado «Resbalando no Cubo Branco» e não resisti ao furto. Afinal, foi nesta sala que Marx estudou os grandes economistas políticos, durante muitas e, certamente, longas tardes. Por lá passarei dentro de dois ou três dias.

sábado, 1 de outubro de 2011

"Amadeus", no Teatro Nacional D.Maria II


E que tal uma ida ao teatro?

"AMADEUS" - Sala Garrett - em exibição até 6 de Novembro de 2011, nos seguintes horários: 4.ª a Sáb. 21h Dom. 16h.

“A origem de Amadeus esteve num desejo antigo de celebrar Mozart, mas a peça não é, na verdade, apenas sobre Mozart. É também sobre Salieri. É sobre a natureza do sentido de injustiça de um homem”, afirmou Peter Shaffer, em 1992. Em Amadeus, teatro, música e ficção histórica cruzam-se e são muitos os caminhos abertos pelo ímpeto de vingança de um homem, Antonio Salieri (Diogo Infante), compositor da corte austríaca no século XVIII, em relação a Wolfgang Amadeus Mozart (Ivo Canelas), prova viva de que “a música é a arte de Deus”. A partir da rivalidade que Pushkin criou entre os dois compositores na sua obra Mozart e Sallieri (1831) e que inspirou a versão teatral de Peter Shaffer, Tim Carroll encena o conflito entre a mediocridade virtuosa e o génio fútil.

Para mais informações consulte o link: http://www.teatro-dmaria.pt/Temporada/detalhe.aspx?idc=1769&ids=16.