segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Pequeno-almoço com Sócrates"


«Se organizássemos uma festa, que conselhos nos daria Maquiavel?

E antes de uma noite de sexo, deveríamos consultar Aristófanes?

Ou o infame Georges Bataille?

O que diriam os grandes pensadores sobre os gestos banais do nosso dia-a-dia?

Parafraseando Annie Dillard, o modo como passamos os dias é o modo como passamos a vida. Não deveríamos então prestar mais atenção aos actos rotineiros que fazem o nosso quotidiano?

O filósofo e jornalista Robert Rowland Smith propõe-nos uma viagem guiada pela história da filosofia, ao longo de 24 horas. O autor imagina o que diriam os maiores pensadores de todos os tempos sobre os momentos chave do dia, desde o momento que acordamos (e passamos a existir, como argumentaria Descartes), até à altura em que adormecemos (com Jung por companhia, a explicar-nos o porquê dos sonhos).

Obra de uma rara inteligência, Pequeno-Almoço com Sócrates usa a filosofia, a literatura, a arte e a psicologia para nos revelar o extraordinário significado da rotina. E ao fazê-lo, ilumina o nosso dia a dia, convida-nos a uma divertida reflexão sobre actos só aparentemente banais. Depois deste livro, nunca mais olharemos para uma simples passadeira de ginásio da mesma maneira...»

Fonte: http://www.fnac.pt/Pequeno-Almoco-com-Socrates-Robert-Rowland-Smith/a317155


Não há muito mais a dizer. Aconselho vivamente a leitura de Pequeno-Almoço com Sócrates, porque é um livro inteligente que prova que a Filosofia não tem de ser chata. Aprender deve ser um gosto. Por que não tirar um tempinho livre para ler esta maravilha de R. R. Smith?


Sara Gonçalves.

"O Discurso do Rei"


«Após a morte do seu pai, o Rei George V (Michael Gambon) de Inglaterra, e da escandalosa abdicação do Rei Eduardo VIII (Guy Pearce) ao trono, Bertie (Colin Firth), que toda a sua vida sofreu de um debilitante problema de fala, é coroado Rei George VI. Com o país à beira de uma guerra e a precisar desesperadamente de um líder, a sua mulher, Elizabeth (Helena Bonham Carter) encaminha o marido para um excêntrico terapeuta da fala, Lionel Logue (Geoffrey Rush). Depois de um começo difícil, os dois homens iniciam uma terapia pouco ortodoxa e acabam por formar um vínculo inquebrável. Com a ajuda da sua família, do seu governo e de Winston Churchill (Timothy Spall), o Rei vai superar a gaguez e tornar-se numa inspiração para o povo. Baseado na história real do Rei George VI, O Discurso do Rei acompanha a luta desesperada do monarca pelo reencontro com a sua própria voz.»

[Fonte: http://www.trailers.com.pt/the-kings-speech/]


É devido à criação de filmes como este, realizado por David Seidler, que eu me considero (com orgulho) uma apaixonada pela arte cinematográfica. Aproveitem a chuva para passar um serão quente e confortável numa sala de cinema (o filme já se encontra em exibição por todo o país) na companhia de um elenco de actores de elevadíssima categoria que dão protagonismo a The King's Speech. É uma forma divertida e, ao mesmo tempo, emocionante, de aprender um pouco sobre o percurso do rei Jorge VI de Inglaterra. Uma história que mostra o quão importante é sermos persistentes e lutadores num mundo que prefere políticos tagarelas e charmosos a reis gagos e honestos.

Aproveito para saudar a fantástica interpretação de Colin Firth. Ontem, ganhou o Bafta. No dia 27 de Fevereiro, merece o Óscar!


Algumas informações adicionais sobre este filme:

Filme nomeado para os Óscares de 2011 nas seguintes categorias:

Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Principal, Melhor Actor Secundário, Melhor Actriz Secundária, Melhor Argumento Original, Melhor Direcção Artística, Melhor Fotografia, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Montagem, Melhor Banda-Sonora, Melhor Mistura de Som.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E-book, não me cheiras!

Já ninguém consegue parar a evolução das novas tecnologias no mundo desenvolvido. Lidar com telemóveis, computadores, projectores e afins já deixou há muito de ser uma opção. Tal facto acarreta consigo vantagens – como o maior acesso à informação e a aproximação dos vários povos e culturas - e desvantagens - nomeadamente no que toca a questões de foro ambiental. Por vezes, o crescimento deste universo electrónico é tão fugaz que habituamo-nos a lidar com o progresso sem reflectir sobre ele. O que é, obviamente, um erro.

Há dias, li um artigo num jornal sobre o livro electrónico, mais conhecido por e-book - um livro digital que pode ser lido em computadores ou até mesmo em telemóveis. Os seus formatos mais comuns são o PDF e o HTML (o primeiro apenas requer o leitor de arquivos Acrobat Reader para ser aberto, no entanto, o último precisa de um navegador da Internet).

A Wikipédia [http://pt.wikipedia.org/wiki/Livro_digital] apresenta algumas vantagens deste engenho, tais como: a sua portabilidade (são facilmente transportados em disquetes, cd-roms, pen-drives e cartões de memória); o preço (como o seu custo de produção e de entrega é inferior, um livro digital de alto padrão pode chegar às mãos de um leitor por um preço até 80% mais baixo que um livro impresso, quando não for, imagine-se!, gratuito); existem também softwares capazes de ler estes livros em tempo real, sem sotaques robotizados, convertendo assim um maravilhoso e-book num ainda mais maravilhoso audiobook!

Todos os atributos atrás enunciados são, admitamos, no mínimo, interessantes (lamento apenas o facto de não se terem lembrado do mais importante de todos, o único que eu colocaria na lista das vantagens do aparelho: menos papel significa menos árvores cortadas; contudo, é bom não esquecer que o e-book não deixa de ter os seus inconvenientes ambientais). Agora pergunto, com todos estes in, por que razão a população letrada tem-se mostrado tão pouco entusiasmada com o livro electrónico? Bom, felizmente ainda há fulanos casmurros que gostam do que é tradicional, preocupando-se mais com os prazeres simples do que com as modernices vistosas.

A meu ver, todo o ser humano deveria apoquentar-se, acima de tudo, com o seu bem-estar, aproveitando pequenos momentos que, não sendo mais do que isso mesmo – momentos – transmitem uma certa dose de gozo, que tantas e tantas vezes nos faz falta para melhor suportar a sufocante rotina diária. Dentro desses pequenos instantes, destaco um: ler um livro. Um livro a sério.

Confesso que tenho grandes dificuldades em ler textos que, por vezes, me enviam para o e-mail. Quando chego à página número cinco ou seis já sinto a vista tão cansada que a vontade de continuar a descoberta perde-se por completo. E, se não imprimir esse texto, o mais provável é pô-lo logo de parte. O desejo de aprender morreu na praia.

Se fizesse uma lista com um dos melhores aromas do mundo, colocaria nela o cheiro de um livro, aquele aroma de papel que conforta qualquer alma solitária! Como poderíamos senti-lo com um e-book? Houve um espertinho – não me recordo agora do nome do senhor – que inventou um autocolante que se cola no aparelho e faculta o mesmo cheiro de um livro em papel. De facto, a ideia foi de génio. Infelizmente para o idiota, não funciona. Ainda há muito boa gente que tem sítios melhores onde gastar o dinheiro (pensavam que o autocalante-maravilha era gratuito, não?), principalmente em tempos de crise!

Não me venham com cantigas: não há nada comparável a carregar um livro connosco numa viagem (lembro-me que sentia um enorme prazer ao ver tantas pessoas com livros na mão no metro de Lisboa, todos os dias, quando ia para a universidade) e pegar nele quando nos apetece sem ter de ligar aparelhos que, por vezes, dão dores de cabeça. Contemplar a sua capa e a sua contra-capa, tocá-lo, cheirá-lo, pô-lo junto ao peito, amá-lo. Um quarto sem livros não é quarto tal como uma cidade sem biblioteca não é cidade. O mundo sem um livro de papel não é mundo.

Não, e-book, definitivamente, não me cheiras!

Sara Gonçalves

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Querem planos utópicos?

«Querem planos utópicos: a única solução do problema político e social seria o despotismo dos sábios e dos nobres, duma aristocracia pura e verdadeira, obtida por meio da geração, pela união dos homens de sentimentos altamente generosos com as mulheres mais inteligentes e finas. Esta proposta é a minha utopia e a minha República de Platão.»

Shopenhauer, in A Metafísica do Amor

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Minhas lágrimas de sal

Minhas lágrimas de sal

Experimentam este rosto

Gelado pela brisa de inverno

Que não deixa só tão pobre

Coração que sente saudade.


Fecho os olhos

E sinto teu olhar sobre mim.

É esse pôr-do-sol que se estende

No areal envolto pelos

Rochedos que um dia pisaste.


Que o céu azul me deixe

Continuar a chorar minhas lágrimas de sal

Até ao dia em que as virás limpar

Com essa tua mão que me pegou

E prendeu até à perenidade.


Enquanto não chegas,

Segura meu frágil coração.

Que não se escaqueire

Até ao dia em que virás

Limpar minhas lágrimas de sal.


De corpos abraçados,

Ouvindo as baladas da natureza

E avistando o azul do horizonte

Não haverá mais lágrimas de sal.

Só eu e tu e o doce deste amor.


Sara Gonçalves

2 de Fevereiro, Praia de S. Lourenço - Ericeira

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"O Cisne Negro"



"Nina é a bailarina principal do New York City Ballet e vê-se enredada numa teia de intriga competitiva com uma bailarina acabada de chegar à Companhia. Uma viagem excitante e por vezes aterradora através da psique de uma jovem bailarina cujo papel de Rainha dos Cisnes resulta num desempenho para o qual ela se torna assustadoramente perfeita." [Estreias Sapo]

Estreia amanhã, nos cinemas.

Enxavada - Capítulo I

Capítulo I

Não se deve correr à frente do vento; quando ele te ultrapassa, nunca mais o apanhas.

Havia um tal rei, de nome Sancho II, que não sabia como fazer justiça no reino. Dele faziam gato-sapato. Falo, claro, dos seus mui, mui nobres conselheiros. Quem não sabe que um rei justo é aquele que aplica a justiça e se faz rodear de bons conselheiros para que, dessa forma, possa julgar melhor? Até o príncipe de Maquiavel deveria saber escolher os mui nobres para estar a seu lado!

D. Sancho II não tinha bons conselheiros. Logo, D. Sancho II não era justo. Pobre homem, que falta de sorte tinha! Esses nobres que o rodeavam não souberam fazer jus ao seu nome no momento em que a tentação de recorrer a igrejas e mosteiros para adquirir meios económicos, difíceis de obter de outra forma, falava mais alto.

Foram, obviamente, os homens da Igreja a tomar a iniciativa de expor a situação em que Portugal se encontrava ao Papa. O rei não era de todo capaz de pôr fim aos abusos a que os eclesiásticos estavam sujeitos. Com a ruptura com a sua tia D. Berengária Sanches e o casamento com Mécia Lopes Haro nem a ajuda de Afonso de Castela lhe valeu. D. Sancho II, que começou por ser justo e acabou não o sendo, ficou ainda mais isolado a nível internacional - ele e Portugal - e mais vulnerável às investidas matutadas contra a sua regência.

Foi no ano de 1245 que desencadeou a guerra civil que opôs D. Sancho II ao seu irmão e futuro rei D. Afonso III.

Como segundo filho, e porque assim mandava a regra, Afonso não deveria herdar o trono destinado a Sancho. Como tal, querendo distância da miséria portuguesa, viveu em França e por lá contraiu matrimónio com Matilde II de Bolonha, em 1235. Por cá, os conflitos entre D. Sancho II e a Igreja tornavam-se cada vez mais insustentáveis…

No meio desta grande trapalhada, havia uma certa família de nobres em litígio com o rei e com o Papa. Sim, com o rei e com o Papa! O chefe de família era Álvaro Mateus que, com pouca paciência para aturar os devaneios da corte e com menos vontade ainda de se fazer fiel súbdito do Papa, pediu exílio a D. Sancho. O mui caridoso, que não queria mais chatices, já lhe bastava as que tinha!, ofereceu ao homem um tal território próximo da vizinha Espanha. Quanto ao Papa, já não havia nada a fazer. Nem a graça de Deus iria chegar para que Álvaro, antigo cavaleiro templário, ficasse do seu lado na luta contra o rei.

Álvaro Mateus não teve logo a paz que desejava. Antes de poder respirar de olhos fechados o ar puro da nova terra, ainda teve de enfrentar os castelhanos e os mouros. Da luta saiu vencedor e, com o seu coração solidário, substitui a punição pela requalificação. Grande homem, grande ideia utilitarista! Os prisioneiros tornaram-se mesmo trabalhadores contentes e satisfeitos com uma terra que, a pouco e pouco, lhes dava uma nova perspectiva de vida.

Com autonomia, Mateus fez crescer o lugar que lhe deram e que, por outro lado, conquistou. Contando sempre com a ajuda da mulher, dos filhos e dos homens que outrora o quiseram derrotar, plantou e semeou oliveiras, vinhas, trigo, cevada, centeio, milho, grão, uma grande variedade de legumes e de fruta. Foi trabalho árduo e os homens, que lá iam encontrando par pelas redondezas, viram no sossego da noite o seu maior remédio.

Não foi rápida a escolha do nome para a terra. Transactos uns tempos, foi posta a placa com umas letras que formavam a palavra Enxavada. Nome forte, de onde sobressai muito suor, muita dor, muita perda, mas também muitos frutos de um trabalho de entre todos e para todos.

Na terra de Álvaro Mateus, todas as religiões eram permitidas. Com o tempo, construíram-se igrejas, mesquitas e templos para que todos pudessem rezar ao seu deus ou aos seus deuses. Tudo era possível, pois proibidos estavam de lá entrar todos os que fossem mandatários do Rei ou apoiantes do Papa. Exílio era exílio. E, se soubesse que era assim tão bom, o homem já o teria pedido há mais tempo!

Na Enxavada não havia riqueza. Não havia corrupção. Isto é, não havia ouro. O produto do trabalho de cada um era investido em actos de solidariedade e, quando a doença estava adormecida, em momentos de lazer que, a pouco e pouco, foram entrando na vida nocturna dos habitantes desta terra.

A obediência existia, claro, mas restringia-se apenas às regras locais, estabelecidas entre todos: trabalhar, ser solidário e, sempre que possível, divertir-se.

A Enxavada tornou-se numa espécie de zona franca. Acolhia todos aqueles que se comprometessem a cumprir tais regras. Assim, os criminosos deixaram de ser criminosos, os pobres deixaram de ser pobres e os que lá chegavam doentes depressa se curavam com o ar pura e limpo de uma terra sem maldade, nem vaidade, nem poluição, nem corrupção.

Enquanto a Enxavada se erguia, novidades se desenrolaram: o Papa Inocêncio IV ordenou a substituição do rei D. Sancho II pelo Conde de Bolonha. Afonso não ignorou a ordem papal: dirigiu-se a Portugal e tornou-se rei, em 1248, após o exílio – bera exílio - e morte de seu irmão, em Toledo.

Bom, ninguém mandou D. Sancho II ser desleixado e tardo na justiça… Essa é que é essa! Não obstante, há males que vêm por bem. Assim, a estupidez de uns abriu portas à inteligência de outros.

Continua...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pobres criaturas, pobres de espírito

Pobres criaturas,

Pobres de espírito!

Quão pouco têm de vida!

Apraz perguntar se saberão

Sequer o que é um olhar de estima

Ou um sorriso de devoção.


Tanto passa ao lado dessas almas

De vozes gritantes e despidas e

Palavras isentas de significado.

Rostos manchados pelo aljôfar

De esperança numa aurora

Que se quer sem lutar.


Em tão quente lar mãos geladas.

Cansaço de tudo, cansaço de nada,

Nos rostos vulgar queixume e

Nos corpos constante devassar.

Pobres coitados, que se sentem mal amados!

Como não, se nada fazem para amar?

Sara Gonçalves

Torres Vedras, 31 de Janeiro de 2011