Cada alma vê o mundo de maneira diferente. A vida, quando vivida, torna-se para todos um bailado de verdades e mentiras, factos e sonhos. E é neste mar de antíteses que todo o ser respira, avistando inevitavelmente um horizonte e sendo ele próprio o horizonte de si mesmo.
"O Escritor Fantasma", o novo filme de Roman Polanski.
«Um escritor-fantasma aceita o encargo de terminar de escrever as memórias do Primeiro-Ministro britânico, Adam Lang. Viaja, a meio do Inverno, para uma casa com vista para o mar, numa ilha próxima da costa leste dos Estados Unidos, com o intuito de começar a trabalhar no projecto. Mas no dia seguinte à sua chegada, um antigo ministro acusa Lang de autorizar a captura ilegal de suspeitos terroristas e de os entregar à CIA para serem submetidos a tortura – um crime de guerra. A acusação traz uma multidão de repórteres e manifestantes à mansão da ilha onde Lang vive com a sua mulher, Ruth, e a sua assistente pessoal (e amante), Amelia. À medida que o escritor vai avançando com o seu trabalho, começa também a descobrir pistas que apontam para uma ligação sinistra de Lang à CIA… e que, de alguma maneira, esta informação se encontra encoberta no manuscrito que lhe foi entregue e estava sendo escrito por uma escritor fantasma contratado antes de si e fora encontrado misteriosamente morto.»
Ao longo da minha vida, tenho-me vindo a aperceber do medo que as pessoas sentem da solidão. Temem-na quase tanto como a morte. Porquê? Será que algum dia experimentaram o sabor de um momento a sós consigo mesmas? Deveriam fazê-lo. A solidão não é um sentimento mau, mas sim de pertença, pertença a uma só pessoa: “eu”. É irracional termos receio de nós próprios e, se temos, é porque não nos conhecemos. Se não nos conhecemos, então, precisamos de solidão. Eu-solidão, solidão-eu. Conhecimento. De nós. Do mundo.
Descobri-me.
Tive um dia mau, como tantos outros. Que fiz eu para tentar perceber aquela angústia que me corroía por dentro e me sufocava de tal forma que o ar parecia não mais querer entrar?
Desapareci.
Fugi do meu mundo e fui para perto do mar. Falei com ele para conseguir falar comigo própria. E consegui. Foi ao sentir toda aquela solidão que me apercebi de um pormenor que escapa à maioria: é nas pequenas coisas que está "aquilo-que-não-sabemos-bem-o-que-é" ("mas-que-julgamos-saber", acrescento). A felicidade. Respirei fundo, a água gelada molhou-me o corpo, o sol do fim do dia aqueceu-me o rosto. Senti o mundo inteiro.
«Quando visitei a Feira do Livro de Buenos Aires, na Primavera de 1995, recomendaram-me vivamente que reservasse uma manhã para a famosa feira da ladra de San Teimo.
Após algumas horas de arrebatamento diante das bancadas ao ar livre, acabei por me refugiar num pequeno alfarrabista. Entre umamodesta selecção de manuscritos antigos,os meus olhos foram atraídos por umacaixa vermelha que tinha uma etiqueta onde se lia: Codex Floriae. Algodespertou o meu interesse e abri a caixa cautelosamente. Lá dentro descobri ummaço de folhas manuscritas quepareciam antigas, muito antigas, everifiquei rapidamente que o texto eraem latim.
Numa linha à parte, havia umasaudação inicial escrita em maiúsculas:«Flória Aemilia Aurelio AugustinoEpiscopo Hipponiensi Salutem.» FlóriaEmília saúda Aurélio Agostinho, bispo deHipona... Devia tratar-se de uma carta. Mas seria realmente uma cartaendereçada a esse teólogo e padre daIgreja que, a partir de meados do séculoIV, passou a maior parte da sua vida noNorte de África? E teria essa carta sidoenviada por uma mulher chamada Flória?
Eu conhecia bem a biografia de Agostinho. Nenhuma outra figura mostra com tanta clareza a profunda mudança cultural que teve lugar na transição da antiga cultura greco-romana para a cultura cristã, que viria a caracterizar a Europa até aos nossos dias. A melhor fonte para conhecer a vida de Agostinho é, naturalmente, ele próprio. As suas Confissões (Confessiones, escritas por volta do ano 400) proporcionam uma visão única do agitado século IV, assimcomo dos seus próprios conflitosespirituais, relacionados com a fé e a dúvida. Agostinho é, talvez, o indivíduoanterior à Renascença que mais próximode nós está.
Mas que mulher lhe poderia terescrito uma carta tão extensa? Na caixahavia pelo menos setenta ou oitentafolhas. Eu nunca ouvira falar de um taldocumento.
Tentei traduzir uma outra frase:«Como é estranho ter de te saudarnestes termos! Em tempos que já lá vão,teria escrito apenas "para o meupequeno e divertido Aurélio".» Nãoestava muito certo da tradução, mas nãorestavam dúvidas de que esta cartaevidenciava um tom muito pessoal.
De repente ocorreu-me um pensamento: poderia esta carta ser daquela mulher que fora a concubina de Agostinho durante anos; isto é, da mulher que ele próprio conta ter tido que deixar por ter escolhido abster-se para o resto da vida de todo o amor sensual? Senti um calafrio porque sabia bem que a única coisa que se conhece da tradição agostiniana sobre essa infeliz mulher ou sobre a sua longa convivência com Agostinho, é o que ele próprio escreve nas suas Confissões.
Passados alguns momentos o alfarrabista aproximou-se e apontou para a caixa. Eu estava ainda petrificado pelaimportância do manuscrito que estava atentar avaliar.
—Uma maravilha! — disse ohomem.
— Sim, penso que sim...
Eu já tinha dado algumas entrevistas aos jornais e à televisão por ocasião da Feira do Livro e o homem reconheceu-me.
— El Mundo de Sofia?
Confirmei com a cabeça. Então o alfarrabista inclinando-se sobre a caixa, abriu-a e colocou-a em cima de um pequeno monte de outros manuscritos como se quisesse dar a entender que não estava muito interessado em vender aquele. Talvez ele tenha ficado um pouco mais receoso depois de se ter apercebido de quem eu era.
—Uma carta a Santo Agostinho? — perguntei. O seu sorriso denotava inquietação.
— Acha que esta carta é autentica?
—Não é impossível — disse ele. —Chegou-me ás mãos há poucas horas, mas se eu tivesse percebido que se tratava do manuscrito que realmente parece ser, não estaria aqui.
— Como é que arranjou isto? Oalfarrabista riu-se:
—Se eu não soubesse proteger osmeus clientes, estaria fora deste ramo há muitos anos.
Uma imensa curiosidade apoderou- se de mim.
—Quanto pede por isto? — perguntei.
— Quinze mil pesos.
Quinze mil pesos pareceu-me umexagero por um manuscrito que, emboraparecesse ser uma carta da concubinade Agostinho, tinha provavelmenteapenas alguns séculos. Na melhor dashipóteses, podia tratar-se da reproduçãode uma carta até agora desconhecida,para o padre da Igreja ou, mais provavelmente, da cópia de outra reprodução ainda mais antiga. Não se podia excluir a hipótese de ter sido escrita em algum convento latino- americano durante o século XVII ou XVIII. Verdade seja dita, até mesmo nesse caso era uma coisa que valia a pena levar para a Europa. Ouvi dizer que em certas comunidades religiosas os Santos Católicos escreviam ou recebiam, de vez em quando, este tipo de carta apócrifa.
Visto que o alfarrabista ia fechar a loja, apressei-me a apresentar-lhe o cartão Visa.
—Doze mil pesos —disse eu.
Ofereci-lhe quase cem mil coroasnorueguesas por uma coisa que,provavelmente, não tinha qualquer valorcomo antigüidade. Mas eu sentia umagrande curiosidade pelo manuscrito enão era, com certeza, a primeira pessoaque pagava caro pela sua curiosidade.Quando li asConfissões de SantoAgostinho pela primeira vez, muitos anosantes, tentei colocar-me na situaçãodesta concubina. A visão que Agostinhotinha do amor entre homem e mulherimpressionou-me profundamente.
O livreiro aceitou a oferta, dizendo: —Acho que devemos consideraresta compra e venda como uma espécie de risco partilhado.
Mostrei-me surpreendido, porque não compreendi o que o homem pretendia dizer com aquilo. Então explicou-me:
—Ou estou a fazer um negócioestupendo ou é o senhor quem está a fazer uma compra ainda melhor.
Registrou o cartão de crédito e disse com um ar sombrio:
— Nem tive tempo de ler omanuscrito. Dentro de dias, o preço subiria consideravelmente ou eu mesmo atiraria esta caixa vermelha para o caixote do lixo que vê ali em frente.
O cesto que indicava estava repleto de livros de bolso velhos, e tinha um cartaz onde se lia: «2 pesos».
Fui eu quem fez o melhor negócio. O Codex Floriae é efetivamente dos finais doséculo XVI e foi, muito provavelmente, escrito na Argentina. A grande dúvida é se existiu, realmente, um pergaminho antigo a partir do qual foi reproduzido o Codex Floriae.
Mas estou absolutamente certo deque se trata de uma carta autêntica,escrita por aquela que foi a amante deAgostinho durante muitos anos. Não meparece possível que tenha sidofalsificada na Argentina nos finais doséculo XVI. É mais natural aceitar que ooriginal provém da época de SantoAgostinho. Tanto a sintaxe como ovocabulário usados no documentoapresentam a marca inconfundível daantigüidade; o mesmo acontece com amistura de sensualidade e reflexãoreligiosa quase desesperada que Flóriadeixa transparecer.»
Vita Brevis é um livro de Jostein Gaarder, editado em 1996, que trata de um suposto Codex Floriae, que teria sido comprado pelo autor numa feira do livro de Buenos Aires (Argentina). Consiste numa colecção de cartas da mãe do filho de Santo Agostinho, Flória Emília, dirigidas ao ex-amante. Nelas, a mulher revela o seu desagrado por ter sido deixada pelo ascetismo do bispo de Hipona. Mónica, a mãe de Agostinho, também é referida várias vezes ao longo da obra por ter contribuído para a separação dos amantes.
O suposto Codex Floriae não tem a sua autenticidade provada. Pode ser apenas um recurso literário do autor, já que o livro é classificado pelas livrarias e pela própria editora como um "livro de ficção". O autor de O Mundo de Sofia também não é conhecido por ser tradutor de obras em latim. No entanto, a questão permanece em aberto.
O certo é que A Vida é Breve é um texto sensível, embelezado com algumas frases célebres proferidas pelos Antigos. Aconselho vivamente a sua leitura (que é fácil, simples e deliciosa) a todos os que conhecem e amam a história de Santo Agostinho.
Deixarei aqui o prólogo da obra para vos adoçar o bico!
A Sétima Porta, de Richard Zimler O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder A República, de Platão Confissões, de Santo Agostinho Crítica da Razão Prática, de Kant A Papisa Joana, de Donna W. Cross Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago Chamava-se Sara, de Tatiana de Rosnay Toda a obra de Fernando Pessoa! ...
O que se vai lendo em Filosofia:
Historia de la Filosofia - 7, de Copleston Sobre la Quadrupla Raiz del Principio de Razon Suficiente, de Schopenhaer O Mundo Como Vontade e Representação, de Schopenhauer Ética Prática, de Peter Singer Freud - Autobiografia Intelectual, «Relógio d'Água» ...