Caríssimos leitores:
É com Wagner que vos desejo um ano de 2012 muito feliz, repleto de saúde e de muitos sucessos, quer a nível pessoal, quer profissional!
Cada alma vê o mundo de maneira diferente. A vida, quando vivida, torna-se para todos um bailado de verdades e mentiras, factos e sonhos. E é neste mar de antíteses que todo o ser respira, avistando inevitavelmente um horizonte e sendo ele próprio o horizonte de si mesmo.
Querida avó,
Desde que partiste que, no dia 8 de dezembro, dedico-te algumas palavras neste meu espaço. Poderia deixá-las na minha mente e, assim, só tu me ouvirias. Porém, o meu amor por ti é tão grande que sou forçada a mostrá-lo ao mundo à minha maneira.
Hoje, Portugal celebra o dia de Nossa Senhora de Conceição. Eu celebro o dia de Conceição Abreu, a mulher mais fantástica que alguma vez conheci. Não te pude acender uma vela (ainda tentei, mas o Sameiro tinha tanta gente que preferi não me enfiar no meio da multidão; não teria aquele silêncio que é imprescindível ao momento em que a chama emerge tal como um beijo que aquece o coração de quem o recebe), nem visitar o sítio onde dormes o mais profundo dos sonos, nem oferecer-te flores. Estou longe. Ainda assim, quero dar-te os parabéns e salientar que nunca me esqueço de ti. Estás sempre comigo e eu contigo. No meio da frialdade, somos o abrigo uma da outra.
Hoje, tive a visita dos meus pais e do teu marido, meu avô. Vi nos seus olhos alguma tristeza; porém, também vi que o esforço por esconde-la foi enorme. Talvez tenham percebido que tu não queres que estejamos tristes, muito menos por tua causa.
Espero que daí, desse lugar de onde nos vês, tenhas ficado orgulhosa com os sorrisos que se desenharam nos nossos rostos, cansados de chorar. Não cansados de te chorar a ti, querida avó, mas sim fatigados deste mundo injusto que, por vezes, não parece ter outra finalidade senão a dor e o sofrimento (como diria o filósofo Schopenhauer que ando a estudar para o teste de quinta-feira).
Quero que todos saibam que és a minha força, a minha inspiração, o meu conforto, a minha referência. Sempre foste, sempre serás.
Vou dormir e espero, sinceramente, encontrar-te nos meus sonhos. Talvez aí te possa abraçar, sentir não só o teu amor, como também o teu cheiro que me faz retornar àquela infância tão feliz que me proporcionaste.
Um beijo acompanhado de muito amor.
Da tua neta.

Sara Gonçalves (a partir dos apontamentos da Professora de Teorias do Inconsciente Cristina Álvares)
Fonte da imagem: http://www.google.com/imgres?um=1&hl=pt-PT&sa=N&biw=1138&bih=541&tbm=isch&tbnid=6MtRafPJA6dIzM:&imgrefurl=http://dollsgina.blogspot.com/p/historia-branca-de-neve.html&docid=OGi1ZrINCEU2RM&imgurl=http://img41.imageshack.us/img41/123/brancadeneve97.gif&w=300&h=371&ei=YOzGToGCNszI8gPn8eyUAQ&zoom=1.

«Schopenhauer, Lord Byron, Goethe, Brockhaus, Metternich: nomes verdadeiramente honrados aparecem neste livro. E todos eles são personagens individuais e fascinantes. Com pouco menos de trinta anos, Schopenhauer ansiava por ver como é que os filósofos e os letrados iriam reagir às suas ideias - como Hegel abandonaria o seu trono e ele se tornaria reconhecido aos olhos do velho Goethe. No entanto, chegado a Veneza, Schopenhauer é posto à prova mais uma vez. Agora, terá que lidar com um novo conceito: o amor. Poderá o amor mudar o seu olhar sobre o mundo? Uma viagem emocionante através da filosofia e da fantasia.»
Para ler um excerto desta obra, aceda ao link da Saída de Emergência:
Lembro-me do primeiro de Novembro
Daquele tempo longínquo
Do qual já só restam recordações.
Assemelho-o àquela infância sorridente
Que partiu sem se despedir,
Deixando ficar apenas rastos
Aos quais hoje presto devoção,
Para tentar reaver alguma da alegria
Que percorria aquele meu corpo de criança.
Jovialmente, lá ia eu,
Embalada pelo tocar dos sinos da igreja,
No primeiro de Novembro,
De porta-em-porta,
Pedir doces, broas e frutos secos,
Com sorte moedas! - não de ouro, mas de chocolate -
A quem quase nada tinha
E que, mesmo sem nada ter, não se importava de dar.
Os velhos da aldeia acatavam todos os pedidos
Porque sabiam que, em troca,
Receberiam olhares cheios de vida,
De esperança, de futuro.
Naquele fim de tarde
Do primeiro de Novembro,
De rosto cansado e rosado,
Comia a oferenda de quem enriquecera
Com o meu sorriso de agradecimento
E, à noite, todos adormecíamos satisfeitos.
Por maior que fosse o frio -
Presságio do Inverno que se avizinhava -
Os nossos corações permaneciam
Quentes, aconchegados com o carinho
Que havia preenchido todo aquele dia.
Hoje, a minha aldeia está morta.
Mesmo assim, não posso deixar de recordar
Aquele primeiro de Novembro.
Sara Gonçalves
Braga, 1 de Novembro de 2011

Sara Gonçalves
Nota: a imagem foi retirada do endereço http://deedellaterra.blogspot.com/2008/12/odissia-oggia.html.