terça-feira, 14 de julho de 2009

A Experiência do Mundo II (A Linguagem)

Vamos agora verificar onde se encaixa a linguagem nas três modalidades da experiência humana atrás referidas. Desde que o homem se tornou homem, que ganhou a possibilidade de inventar e representar o mundo através da linguagem, atribuindo um significado às coisas. "Tanto a apreensão dos sinais exteriores como a representação inteligível que deles construímos é feita na linguagem”. E “o mundo intersubjectivo, estruturado pela linguagem, co-estrutura o mundo subjectivo de cada um”. É por isso que os processos de comunicação determinam a construção da identidade pessoal. A linguagem institui o mundo humano. Heidegger havia dito que se deu uma abertura do homem ao mundo, quando este se aborreceu e despertou do aturdimento animal, e foi mesmo a partir daí que o homem começou sempre a falar, acordado ou a sonhar. Remontando à Pré-História, nas suas pinturas rupestres o homem já falava. Através das inscrições das suas vivências nas rochas das cavernas, mostrava ser já possuidor de uma linguagem, detentor da capacidade de formar mundo, o seu mundo. Sem se aperceber, já “fabricava” características que, mais tarde, a escrita, uma outra forma de linguagem, adoptou como suas: o facto de essas pinturas, tal como as escrituras, se perpetuarem no tempo. Na obra “Fedro”, de Platão, a escrita é-nos apresentada segundo dois pontos de vista: o de Thoth, seu inventor, e o de Tamuz, detentor do poder. O primeiro dizia que a escrita é um remédio para a memória e um caminho para a sabedoria; e o segundo refutou a ideia do deus egípcio, afirmando que ela era sim um remédio para a remomeração, pois as pessoas iriam deixar de exercitar a memória. Além disso, a escrita é exterior ao logos, ao pensamento, e por isso esquece-se que o mais importante é a memória autêntica – a da Alma. Chegamos assim à conclusão que, na experiência, as formas que os humanos escolhem para comunicar vão sendo mais diversas há medida que o tempo passa: dantes, o homem comunicava com as já referidas pinturas rupestres; depois, passou a fazê-lo através da oralidade, em que, segundo os gregos, “o sopro da voz era o prolongamento da Alma” (Epistemé – experiência tradicional); finalmente, na modernidade, apareceu a escrita, uma tekné, ou seja, uma técnica exterior. Esta foi uma forma de os homens conseguirem falar da História e hoje é mesmo a nossa própria existência, pois sem documentos escritos que provem que somos cidadãos, tornamo-nos num "nada". Ainda assim, a escrita acarreta consigo uma morte do autor, pois é irresponsável, não responde por si. Não deixa de ser, no entanto, mais uma forma de as pessoas comunicarem. Com ela, passou mesmo a haver uma “mobilidade (infinita ou humanamente infinita) do dizer, do desdizer e do redizer.
Para terminar, “experiência e linguagem estão sempre ligadas, pois o plano do dizer é o único capaz de acompanhar o movimento das intensidades, a multiplicidade dos afectos, dos perceptos e dos conceitos incessantemente produtores de diferença. É no sentir e no pensar que a linguagem faz a gestação diferenciadora da experiência.”

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